Péptidos
e nem tudo o que é injectável é medicamento.
Há uma expressão de que gosto muito e que, traduzida para português, seria algo como: toda a gente quer fazer ayahuasca, mas ninguém quer lavar a loiça. No fundo, significa que procuramos soluções fáceis, pontuais e glamorosas, que ficam bem nas redes sociais, em vez do trabalho contínuo, repetitivo e aborrecido, que raramente é partilhável.
Isto aplica-se não só ao desenvolvimento pessoal e à espiritualidade, mas também a muitas outras áreas. A mais recente tendência nas redes sociais é o uso de péptidos injectáveis não regulamentados para vários fins. Se acham que estou a exagerar, escrevam retatrutide ou GLOW/KLOW protocol numa rede social ou no Google e vejam os vídeos.) Estive recentemente num jantar com amigos e, aparentemente, vários têm um fornecedor chinês de péptidos.
Estes péptidos não estão autorizados pelas entidades reguladoras de saúde e os estudos disponíveis não são suficientes para demonstrar a sua segurança e eficácia em humanos. A maioria da investigação foi feita in vitro ou in vivo em modelos animais, sobretudo ratos. É preocupante a facilidade com que se encara a encomenda de injectáveis de origem desconhecida como se fosse equivalente à toma de um suplemento oral. Ou seja, não estamos a comprar um medicamento aprovado por uma autoridade de saúde de outro país. Estamos a comprar algo completamente não regulado.
Os mais falados
Retatrutido: é um fármaco em investigação, actualmente em ensaios clínicos de fase 3 pela empresa farmacêutica Lilly, para obesidade e diabetes. Tem mostrado um efeito potencialmente superior aos GLP-1 já comercializados, como o semaglutido (Ozempic), porque actua em três receptores. Ainda assim, o termo correcto continua a ser GLP-1, e não GLP-3, como muitas vezes aparece nas redes sociais. É o péptido que está numa fase de desenvolvimento mais avançado e deve ser autorizado no final de 2026 ou início de 2027.
BPC-157: péptido derivado do suco gástrico humano, com possível efeito regenerador em tendões, ligamentos, músculos e nervos. Os estudos pré-clínicos sugerem algum potencial na cicatrização, mas a evidência clínica em humanos continua a ser muito limitada. Pode ser administrado por via subcutânea, intramuscular ou oral. Está na lista de substâncias proibidas da FDA por falta de evidência de segurança. Um dos estudos de 2025 aponta que pode proliferar o crescimento de células tumorais, mas que mais estudos são necessários.
TB-500: derivado da timosina beta-4, associado à migração celular, reparação tecidular e efeitos anti-inflamatórios. Tem sido estudado sobretudo em contexto pré-clínico e veterinário. Está na lista de substâncias proibidas da FDA por falta de evidência de segurança.
GHK-Cu: tripéptido ligado ao cobre, envolvido na regeneração da pele e do tecido conjuntivo. Estimula fibroblastos, regula a remodelação do colagénio e poderá ter interesse na recuperação de tecidos moles. Existem vários séruns cosméticos com este ingrediente para aplicação tópica, como os da The Ordinary, NIOD ou Geek & Gorgeous. Está na lista de substâncias proibidas da FDA por falta de evidências de segurança (apenas na categoria injetável).
Como farmacêutica a trabalhar na indústria farmacêutica, as minhas maiores preocupações são várias: os efeitos adversos não estão devidamente estudados, não existem doses terapêuticas definidas em humanos e, sobretudo, é extremamente arriscado encomendar pela internet substâncias injectáveis não regulamentadas, sem garantias sobre a sua origem ou fabrico.
Não sabemos que impurezas e solventes podem estar presentes. E, tratando-se de produtos injectáveis, a questão não é apenas a pureza: é também saber se foram realizados testes microbiológicos adequados, se o produto é estéril e se foi produzido em condições minimamente seguras. Mesmo quando alguém diz que manda testar os péptidos em laboratório independente, isso normalmente apenas confirma a identidade ou o grau de pureza da substância, não garante esterilidade, ausência de contaminantes ou qualidade farmacêutica. O dossier de submissão de um medicamento a uma autoridade de saúde é complexo e todos os controlos que existem para os medicamentos aprovados não existem nestes casos.
O protocolo GLOW é TB-500 + BPC-157 + GHK-Cu e o protocolo KLOW é (TB-500 + BPC-157 + GHK-Cu) + KPV, todas substâncias proibidas pela FDA, a autoridade de saúde americana. Houve alguma especulação de que certos péptidos poderiam ser removidos da lista de substâncias proibidas, para poderem ser manipulados pelas farmácias e receitados por médicos nos EUA, na sequência de declarações de Robert F. Kennedy Jr., mas, até ao momento, nada aconteceu. Mesmo que isso aconteça, a falta de estudos de segurança mantém-se, o que melhora é a garantia de que os produtos foram devidamente fabricados. Estes produtos não são permitidos na Europa.
Por isso, esta normalização promovida pelas redes sociais parece-me profundamente perigosa. E atenção, eu não são contra péptidos, acho que têm imenso potencial (a insulina é um péptido que há anos salva vidas!), o que falta é um investimento maior na pesquisa e ensaios clínicos de forma a que se percebam doses, segurança, eficácia, e que sejam medicamentos devidamente regulamentados. Os péptidos sinalizam imensos processos no nosso organismo, e é preciso mais estudos. Da mesma forma que injectáveis são mais facilmente absorvidos, podem ter efeitos adversos muito mais graves que comprimidos.
Obviamente, há muitas pessoas a lucrar com estas estratégias de marketing e com o mercado paralelo que se criou à volta destas substâncias: wellness coaches, profissionais de saúde (!!!), “experts” e influencers que se baseiam nos poucos estudos para declarar que o retatrutido é superior ao Ozempic/Mounjaro (possivelmente será mas ainda não está aprovado e não temos doses estabelecidas), ou que, em vez de usar um sérum com péptidos, o melhor é injectar GHK-Cu para estimular o colagénio. Enviaram-me um artigo de uma coach de menopausa que dizia que a solução não é Terapia Hormonal de Substituição (que é o que as guidelines indicam), mas péptidos. Claro, que tinha links afiliados e aconselhamento personalizado dos mesmos. Também é verdade que as pessoas sentirem que a medicina convencional lhes está a falhar, faz crescer a procura por soluções paralelas.
Sou extremamente a favor do livre-arbítrio, desde que as pessoas reconheçam e compreendam os riscos. Mas acho fundamental pesar cuidadosamente os dois lados da balança e não cair em conversas de “experts” que não conhecem verdadeiramente esses riscos, porque o perfil de segurança destas substâncias simplesmente não está definido. E é difícil argumentar que quaisquer potenciais benefícios justifiquem riscos que podem incluir cancro ou até a morte.
Estamos a levar demasiado longe a ideia de que a saúde é algo que se compra com soluções fora da caixa.



